Monsanto e Agente Laranja: Fraudes em Estudos Sobre Dioxinas

por Júlia Martino *

Vamos examinar o caso exemplar de fraude que afetou o entendimento da comunidade científica e dos órgãos reguladores dos Estados Unidos (e do mundo) sobre o risco das Dioxinas, o carcinógeno encontrado no famigerado Agente Laranja, herbicida da Monsanto¹ que foi usado como “desfolhante” durante a guerra do Vietnam.

Antes de ter suas pesquisas postas em cheque, a Monsanto sustentava através delas que o Agente Laranja não estava contaminado com Dioxinas (para isso usou amostras falsificadas²) e que as Dioxinas não podiam ser confirmadamente consideradas carcinógenos humanos. A empresa afirmava que o Agente Laranja não provocava câncer, apenas uma doença de pele chamada Cloracne. Essa foi sua defesa contra os inúmeros processos de vítimas do Agente Laranja, incluindo veteranos do Vietnam, civis Vietnamitas e trabalhadores dos Estados Unidos.

As pesquisas que falsificaram a carcinogenicidade das Dioxinas foram realizadas a partir de 1978 por Dr. Raymond Suskind³, contratado pela Monsanto para estudar os trabalhadores da fábrica de Agente Laranja chamada Nitro (West Virginia)  que, em 1949, foram vítimas de um vazamento e expostos a altas doses de Dioxina. Seu suposto objetivo era examinar os efeitos a longo prazo da exposição à Dioxina na saúde humana. Através delas se chegou à “conclusão” que não havia diferenças consideráveis na incidência de câncer entre trabalhadores que foram expostos à Dioxina e o grupo controle. Esse resultado serviu de base para a legislação de risco ambiental e à saúde humana da Dioxina, sendo responsável por categorizar a Dioxina como uma substância “sem suficientes provas de carcinogenicidade em humanos, com indicações em animais” (“B2” na escala EPA – Environmental Protection Agency – EUA). Isso porque o exame dos trabalhadores contaminados, se tivesse sido realizado com rigor, seria o mais confiável estudo sobre a carcinogenicidade da Dioxina em humanos e assim foi considerado até que o NIOSH (National Institute of  Occupation Safety and Health – EUA) refez a pesquisa utilizando os mesmos dados e chegou a resultados opostos4.

Os seguintes comentários foram retirados de dois memorandos5 escritos pela Dra. Cate Jenkins, PhD em química e membro da Divisão de Avaliação e Regulamentação da EPA, nos quais ela acusa a Monsanto e aponta as falhas do método usado nas pesquisas.

Entre as fraudes do método usado na pesquisa da Monsanto estão:

* Omissão de dados extremamente relevantes: Embora tivesse acesso a exames que comprovam problemas neurológicos nos trabalhadores expostos à Dioxina, Dr. Suskind negou publicamente que existissem.

* Uso de dados sem verificação independente: Dr. Suskind usou, sem nenhuma verificação independente, estatísticas compiladas por burocratas da Monsanto sobre as condições de pele dos trabalhadores.

* Publicação de alegações sem respaldo científico e utilização de tais alegações como base para construir o método de sua pesquisa: Dr. Suskind afirmou em estudos publicados que a Cloracne (uma doença de pele) é a principal indicação de alta exposição humana às Dioxinas. No entanto ele nunca examinou nenhum trabalhador que não apresentasse Cloracne6. Essa alegação sem nenhum respaldo científico foi usada como justificativa para a escolha dos grupos estudo e controle de suas pesquisas. Também foi repetidamente usada pelo EPA para negar que a Dioxina pudesse ser causa de problemas de saúde em qualquer pessoa que não apresentasse Cloracne, inclusive em processos judiciais. Estudos posteriores do “Center of Disease Control” (EUA) demonstraram que indivíduos com pouca Dioxina no corpo desenvolveram Cloracne, indivíduos com níveis mais altos de Dioxina não.

* Manipulação dos resultados da pesquisa através de incorreta seleção dos grupos estudo e controle:

* O grupo estudo, que deveria conter apenas trabalhadores altamente contaminados por Dioxina, continha indivíduos que não tinham sido expostos ou tiveram pouca exposição à substância. Isso porque o pesquisador incluiu nesse grupo não só os trabalhadores que apresentavam Cloracne, mas também qualquer doença de pele. Dessa forma as boas condições de saúde de trabalhadores que não tiveram exposição à Dioxina ou tiveram muito baixa exposição foram contabilizadas como sendo de indivíduos muito contaminados.

* O grupo controle, que deveria conter apenas trabalhadores que não foram expostos à Dioxina, foi selecionado na fábrica onde ocorreu o vazamento de Dioxina. A Monsanto tinha conhecimento que esses indivíduos haviam sido expostos à Dioxina e também a outros carcinógenos. Dessa forma, os problemas de saúde de trabalhadores contaminados por Dioxina foram contabilizados como sendo de indivíduos não contaminados.

* Ou seja: As pesquisas da Monsanto chegaram ao resultado que não haveria diferença estatística relevante para desenvolvimento de câncer entre o grupo estudo e o grupo controle. Se tivessem feito uso do método científico, indicariam que a exposição à Dioxina não aumenta o risco de câncer. No entanto, considerando que ambos os grupos (estudo e controle) continham indivíduos altamente contaminados e indivíduos que não foram expostos à Dioxina, quer dizer, considerando que não havia diferenciação entre os grupos estudo e controle que permitisse estuda-los comparativamente, o resultado dos estudos não quer dizer absolutamente nada cientificamente.

* Omissão de grupo extremamente relevante à pesquisa: Uma das pesquisas envolveu exames dos trabalhadores da fábrica contaminada com Dioxinas por médicos da Monsanto. Muitas centenas de trabalhadores foram excluídos da pesquisa pois estavam doentes demais para viajar e não puderam ser examinados pelos médicos da empresa. Monsanto não quis usar os dados de outros médicos, dizendo que isso introduziria inconscistência. Dessa forma convenientemente omitiu do estudo todos os trabalhadores gravemente doentes e doentes terminais, inclusive portadores de canceres como o linfoma Não-Hodkins, associado à exposição às Dioxinas.

* O NIOSH não encontrou nenhuma validação científica para a exclusão, nos estudos da Monsanto, de dados sobre Sarcoma de Partes Moles – câncer extremamente raro. Apenas três casos de SPM foram o bastante para demonstrar um significativo aumento estatístico desse tipo de câncer, por causa de sua raridade. Monsanto havia excluído dois casos de SPM de seus estudos, por motivos que o NIOSH considerou “caprichosos” e essa exclusão foi o bastante para fraudar a estatística, obtendo um resultado negativo de aumento de SPM no grupo estudo.

* Monsanto falhou em estabelecer os níveis de exposicão à Dioxina de um quarto trabalhador que faleceu por SPM. Dessa forma, além de excluí-lo de sua pesquisa, também forçou NIOSH a fazê-lo, por falta de dados. Esse trabalhador cuidava da manutenção geral da fábrica onde ocorreu o vazamento de Dioxina, fábrica que a EPA determinou como totalmente contaminada por altos níveis de Dioxina, de forma que nenhum de seus trabalhadores poderia ter escapado à contaminação. Durante interrogatório em 1983 Dr. Suskind falhou em dar qualquer justificativa para não ter determinado os níveis de exposição desse trabalhador em particular.

* Entre outras fraudes.


 

NOTAS:

¹ Monsanto é a maior produtora de sementes transgênicas do mundo. Também é líder mundial na produção do herbicida glifosato, comercializado sob o nome de “Roundup”. Seus pesticidas têm sido responsabilizados por uma série de doenças, inclusive cânceres. As sementes transgênicas, além de serem associadas à ocorrência de câncer, também são acusadas de destruir os ecosistemas aos quais são inseridas. O modelo agressivo da empresa, que compra produtoras de sementes em todo o mundo, caminhando para a criação de um monopólio na produção de sementes e obrigando agricultores a usar suas sementes transgênicas, é apontado como contribuinte para a fome e miséria no mundo.

² Dados internos da Monsanto de 1960 mostram que eles sabiam que o Agente Laranja estava contaminado com Dioxina, além de que ele era responsável por danos ao fígado e rins. (fonte: Memorando de 15 de Novembro, citado abaixo).

³ Estudos da Monsanto e Dr. Raymond Suskind:

  • J.A. Zack, and R. Suskind, “The Mortality Experience of Workers Exposed to Tetrachlorodibenzodioxin in a Trichlorophenol Process Accident,” J. of Occupational Medicine, Vol. 22 (1980), pgs. 11-14.
  • J.A. Zack, and W. R. Gaffey, “A Mortality Study Of Workers Employed At The Monsanto Company Plant In Nitro, West Virginia,”
    Environmental Science Research, Vol. 26 (1983), pgs. 575-591.
  • R.R. Suskind, and V.S. Hertzberg, “Human Health Effects Of 2,4,5-T And Its Toxic Contaminants,” Journal of the American Medical Association, Vol. 251, No. 18 (1984), pgs. 2372-2380.
  • R.R. Suskind, “Chloracne, ‘The Hallmark Of Dioxin Intoxication,'” Scandinavian Journal of Work, Environment and Health, Vol. 11, No. 3 (1985), pgs. 165-171.
  • R.R. Suskind, “Long-Term Health Effects Of Exposure To 2,4,5-T And/Or Its Contaminants,” Chemosphere, Vol. 12, No. 4-5 (1983), pg. 769.

4 Link para os estudo do NIOSH: Cancer Mortality in Workers Exposed to 2,3,7,8-Tetrachlorodibenzo-P-Dioxin

5 Memorandos da Dra. Cate Jenkins:
* Memorando de 15 de Novembro;
* Memorando de 24 de Janeiro.
O memorando de William Sanjour, Analista de Protocolos da EPA, sobre a investigação da Monsanto é outra fonte interessante: The Monsanto Investigation.

6 Segundo o memorando de 15 de Novembro da Dra. Cate Jenkins.


 

* Júlia Martino é administradora desse blog.

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