Entrevista com a Dra. Nise Yamaguchi

Hábitos

A Doutora Nise Yamaguchi começa a segunda parte da entrevista falando sobre a ligação entre câncer e hábitos. Respondendo à pergunta se o aumento da incidência de câncer de mama é resultado da melhora nos diagnósticos ou se está realmente havendo um crescimento do número de casos ela responde: o diagnóstico melhorou, mas simultaneamente está havendo aumento de casos. Provavelmente porque cresceu a quantidade de indivíduos que cultiva hábitos ligados à incidência de câncer: Somos sedentários, consumimos mais gorduras e mais carnes, temos 50% da população mundial em obesidade.

Se sabemos que isso faz mal, por que fazemos?, pergunta a entrevistadora. Infelizmente vivemos num ciclo vicioso, explica a médica: as pessoas não têm mais tempo para respirar, para dormir. Quem não dorme direito tende a ser mais obeso, porque o centro de saciedade fica alterado, os hormônios se alteram. Vivemos em constante estresse e o estresse aumenta o cortisona, que aumenta a necessidade de consumir açúcares e carboidratos. Nise está chamando atenção para o fato de que pequenos hábitos errados acionam uma reação em cadeia autodestrutiva, que se agrava com o passar do tempo e faz com que nosso organismo esteja mais propenso ao desenvolvimento de doenças como a hipertensão e o câncer.

Além do estresse, somos muito influenciados pela propaganda. A doutora afirma, por exemplo, que uma das coisas mais incríveis que aconteceram nesse país foi o controle do tabagismo. O controle do tabagismo significa um grande controle do câncer. Enquanto países que não fizeram campanha antitabagismo, incluindo proibição de propaganda tabagista, têm hoje mais de 50% de sua população fumante, no Brasil temos de 15% a 20%. [parte 3 – 6:38] O tabagismo é, depois da má alimentação, o hábito mais ligado à incidência de câncer.  Tabagismo, depois da hipertensão, é a maior causa de morte no mundo (estatística da Organização Mundial de Saúde).

Na segunda parte da entrevista ela dá outro exemplo de escolha e estilo de vida que previne o câncer de mama: Amamentação durante a maternidade. Alternância hormonal durante a maternidade também ajuda. [parte 2 – 12: 52]

Nossa saúde depende de nós – afirma Nise -, mas infelizmente deixamos muito para o outro, para o médico. Não entendemos que somos parte do processo de saúde e de cura através do nosso poder de decisão. A gente não interiorizou que somos indivíduos com capacidade de mudança e proatividade. Você, em qualquer momento da sua vida, pode tomar a decisão que vai parar de fumar e procurar auxílio de pessoas e da rede de saúde para fazer isso, ou para reformular seus hábitos alimentares. Temos que acreditar na nossa capacidade de nos reinventar. [início da parte 2]

Diagnóstico precoce

A médica diz que os cânceres de mama são, hoje, em sua maioria, pequenos e curáveis. Isso é resultado das mulheres estarem fazendo a mamografia com a frequência indicada e procurando o médico rapidamente quando existe qualquer alteração. O diagnóstico precoce aumenta a chance do câncer de mama ser curável. [parte 1 – 2:03] Essa é uma ótima notícia: Indica que a campanha de conscientização do câncer de mama está tendo resultados positivos na cura do câncer!

Além disso, ela informa que temos no Brasil uma das maiores redes de diagnóstico e tratamento de câncer do mundo. [parte 1 – 5:38] Por exemplo, o teste genético para rastreamento da mutação no BRCA1, que Angelina Jolie fez [2 parte – 11:24], está disponível nos Hospitais Universitários [parte 2 – 13:29]. No entanto, a doutora avisa às mulheres que a porcentagem da população que tem essa mutação genética é mínima, e que o teste só é necessário nos casos indicados pelo médico oncologista.

O diagnóstico precoce tem que ser um objetivo da rede como um todo. Ela diz que 40% a 50% dos pacientes do estado de São Paulo têm algum seguro saúde. Só que os médicos da rede dos seguros saúde ainda não estão completamente imbuídos da mentalidade do diagnóstico precoce. Os médicos de família, os clínicos gerais têm de estar atentos a sinais que podem indicar câncer e saber distinguir casos que requerem intervenções urgentes. [parte 1 – 8:31]

Com mais treinamento técnico do médico em sua formação seriam necessários menos exames para o diagnóstico. Ela diz que antes do médico pedir “um quilo de exames” seria mais interessante que ele soubesse exatamente o que está procurando. [parte 1 – 12:35] Esse aprofundamento clínico em cada caso é prejudicado pela necessidade que o médico tem de prestar consultas rápidas.

Missão da medicina e espiritualidade, relação com o outro e solidariedade

Doutora Nise também conta o que valoriza na relação médico-paciente e qual ela acredita ser a missão da medicina.

Mesmo trabalhando em grandes hospitais particulares, procura usar todo esse conhecimento para tornar as coisas mais acessíveis no SUS. [parte 1 – 14:56] Ela se sentiria totalmente insuficiente em sua carreira se não fosse capaz de usar todo essa expertise em conjunto com a medicina pública, compartilhando um único objetivo: melhorar a situação da saúde como um todo. Mais a frente na entrevista ela diz que precisamos acreditar que o padrão ouro é possível.

Não é somente o psicólogo que deve se preocupar em cuidar da saúde mental do paciente. O médico tem o conhecimento frio e desumano dos números probabilísticos de cada caso, mas Nise propõe que o profissional olhe cada paciente e acredite que aquele indivíduo específico tem a capacidade de ir além das estatísticas. Assim aquela relação humana pode ser proveitosa. Sabemos que durante o tratamento do câncer a situação psicológica do paciente influencia muito na sua capacidade de luta contra a doença e interfere no tratamento. [parte 3 – 5:40]

Outra ideia a qual ela chama atenção na relação médico-paciente é a coparticipação. Coparticipação, na humanização da medicina, significa a participação do próprio indivíduo na relação dele com o sistema e na relação dele com o médico. É comum, por exemplo, o paciente deixar de tomar os remédios receitados, pois não compreende a importância de tomá-los. O paciente precisa trabalhar em cooperação com o médico para que ele possa render o máximo numa estratégia de tratamento. [parte 3]

Nos blocos 3 e 4 a médica fala sobre fé: Fé está ligada à esperança e a universalidade. A vida é uma graça, um dom divino. É uma chance, uma descoberta. Eu medito, eu presto atenção na natureza, eu agradeço ao universo, eu celebro a vida. Sem essa composição filosófica eu teria dificuldades em entender as necessidades dos meus pacientes. Eu termino o meu dia depois de 20 horas de trabalho mais plena do que comecei, com a percepção de que a gente é parte de um todo, que estamos sendo mantidos por uma rede imanente de qualidades do ser humano, a qualidade de amorosidade é o que me nutre. Temos essa oportunidade de estar trabalhando dentro de um processo, dentro de um movimento, de uma época da humanidade, mas eu não acredito que a vida vá acabar aqui. Para mim a vida é eterna, ela continua. Eu costumo dizer que nós somos pessoas iniciais, em um processo de aprendizado constante, de crescimento, de aperfeiçoamento. A gente se acrescenta.

Sobre oncovitae

Clínica de oncologia em Botafogo, Campo Grande, Madureira e Tijuca - Rio de Janeiro. Consultas oncológicas, cururgia oncológica, quimioterapia, psiconcologia, nutrição oncológica. Convênio ou particular.

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