Homem x Máquina ou Homem-máquina?

Por Cristhiane Silva Pinto*

Primeiro de tudo, quero desejar a todos os nossos leitores um Feliz Ano Novo! Que 2015 possa ser pleno de realizações! Mas hoje quero falar de outras coisas que têm me ocupado parte do pensamento.

Tenho vários compromissos de trabalho, como a maioria dos médicos que conheço, uma vez que a remuneração na saúde tá longe de ser a ideal… Em um dos meus empregos trabalho em um serviço público de emergência, desses que toda hora aparecem na televisão, muito mais por pontos negativos do que positivos. Trabalho lá há quase três anos, o ambiente é limpo, na maioria das vezes as pessoas são fáceis de se conviver e os materiais e insumos cobrem a maioria das necessidades. Mas, de uns meses pra cá, tenho tido muita resistência a cumprir minhas obrigações e ir ao plantão. Primeiro achei que era por estar ficando mais velha e cansada, que é ruim acordar cedo no final de semana após 15 anos de formada e três especialidades. Mas algo me intrigava, uma vez que isso não acontece nos meus outros empregos.

Hoje, após chegar do plantão,  me dei conta da verdade: Quando estou lá, não me sinto gente! Como assim? Quando estou lá, não consigo ser a médica que me dediquei tanto pra ser. Não consigo conversar adequadamente com as pessoas, a anamnese precisa ser rápida e dirigida: Está com dor nas costas? Quando começou? É alérgico a algum remédio? Então vou lhe aplicar uma injeção e o senhor(a) está liberado(a). Infelizmente é o que é possível fazer quando a fila de atendimento é interminável… Não é possível saber de fato a origem daquela dor, se suas causas são complicadas pela falta de familiares, dinheiro ou comida. A dor do outro passa ao largo, sua história de vida, crenças e desejos não nos dizem respeito… E aquelas situações se repetem exaustivamente até findarem-se as 12h obrigatórias! Quando acaba, pegamos nossas coisas, vamos embora e voltamos a ser gente… será?

Os pacientes estão  acostumados a pensar que o atendimento deve ser assim, e quando recebem um sorriso ou um olhar de compaixão sentem-se até embaraçados, como se um traço fugaz de humanidade não tivesse lugar no mundo do homem-máquina de jaleco! Não concordo! Gosto de tempo pra examinar e conversar, conhecendo um pouco melhor aquele que me procura solicitando auxílio. Gosto de poder ler nas entrelinhas, ver o que não fica na superfície.

Antigamente, os médicos tinham menos recursos, porém, possuíam mais tempo para dedicar aos pacientes. Claro que não sou louca de achar que não houve evolução, hoje existem doenças que dizimaram centenas e que curamos apenas com pequenos comprimidos. Mas não penso que seja impossível aliar boa prática ao benefício dos novos medicamentos e tecnologias. Faço isso nos outros lugares nos quais trabalho, um público e outro privado. Mas por que não podemos fazer isso em todos os lugares?

Os mais práticos e céticos dirão que emergência não é lugar pra conversar, que temos tempo curto para sermos precisos e eficazes. Eu concordo no que concerne às emergências reais, onde os minutos contam como ouro. Mas a maioria dos pacientes que procura esses tipos de unidades têm na realidade casos crônicos agudizados, e fazem uso do serviço por estarem a margem de um sistema que não funciona adequadamente… Como resolver? Não sei, ainda não estou pensando nisso de forma organizada e coerente, mas vou começar…vamos?

*Cristhiane Silva Pinto é médica especialista em Cuidados Paliativos e Bioética. Atua nas Unidades de Cuidados Paliativos do INCA e da OncoVitae.

Sobre oncovitae

Clínica de oncologia em Botafogo, Campo Grande, Madureira e Tijuca - Rio de Janeiro. Consultas oncológicas, cururgia oncológica, quimioterapia, psiconcologia, nutrição oncológica. Convênio ou particular.

Deixe um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s